O estilo jornalístico

 O estilo jornalístico 

Nilson Lage (1999, p. 35) destaca que o jornalismo não é um gênero literário, mas observa que o texto jornalístico possui regras próprias e sua produção deve objetivar uma comunicação eficiente, com aceitação social.

Assim, se não há uma “língua de jornal”, como diz Burnett (1991, p. 40), pode-se dizer que existe um estilo jornalístico de escrever, de usar uma língua comum, com normas determinadas e características que podem ser descritas, conforme se verá, e estão catalogadas nos livros de redação jornalística ou manuais de redação dos jornais.

O termo “estilo” jornalístico parece, porém, mais apropriado do que “linguagem” jornalística quando se fala da forma de redação da imprensa. Sob o rótulo de linguagem jornalística podemos incluir, além dos elementos textuais, o projeto gráfico e os elementos visuais. Geralmente se associa o estilo jornalístico moderno à imprensa americana, ligando-o também ao modo de produção da notícia enquanto mercadoria. De fato, a difusão quase que universal do padrão textual baseado na pirâmide invertida liga-se à transposição de um modelo americano de imprensa, principalmente via agências de notícias. Entretanto, as características básicas do estilo jornalístico são anteriores ao final do século XIX, quando começou a ocorrer a difusão de notícias via agências. A primeira tese de doutorado sobre jornalismo, escrita em 1690 por Tobias Peucer (apud Rocha, 2000), já abordava os relatos jornalísticos e fazia referência ao estilo de texto utilizado pelos periódicos. Aliás, Casasús e Ladaveze não só sustentam a tese de que a forma narrativa da pirâmide invertida se originou na retórica clássica, como observam que as seis perguntas normalmente básicas que deveriam ser respondidas pela notícia (o quê, quem, quando, onde, como, por quê) “não são outra coisa que os elementa narrationis simplesmente traduzidas” (1991, p. 20). 

O estilo jornalístico, porém, toma sua forma definitiva no século XIX, nos Estados Unidos. As novas feições dos jornais – que passavam a se tornar empresas dentro do modo capitalista de produção – resultaram em conseqüências no texto jornalístico e tiveram também grande influência das inovações tecnológicas. O advento do telégrafo, em 1840, consolidou as principais mudanças na estrutura das notícias. (Fontcuberta, 1980, p. 20).  

O estilo jornalístico da notícia baseado na pirâmide invertida também está ligado a procedimentos utilizados nos Estados Unidos, durante a Guerra de Secessão (1861-1865). Vários jornalistas foram mandados ao campo de batalha e enviavam notícias via telefone. Com a precariedade do sistema, era necessário que as informações mais importantes fossem passadas de imediato. Cada um ditava um parágrafo da notícia de cada vez, era uma roda de informações. Ao se acabar a primeira rodada de transmissões, se iniciava o ditado do segundo parágrafo e assim até o final. “Havia nascido a pirâmide invertida” (Fontcuberta, 1980, p. 21). 

No início do século XX, enquanto a imprensa dos Estados Unidos começava a ser dominada pelo estilo objetivo de escrever, oriundo das agências de notícias, o jornalismo brasileiro praticava um estilo rebuscado, sob influência do parnasianismo francês. “Exaltava-se o estilo empolado dos discursos de Rui Barbosa” e o estilo dominante era tão pedante que as matérias seriam hoje praticamente incompreensíveis (Lage, 2000). 

O estilo já implantado nos Estados Unidos chega ao Brasil por meio dos telegramas das agências internacionais e começa, mesmo que esparsamente, a influenciar o noticiário. Até a década de 1920, a imprensa brasileira seguia o perfil do jornalismo europeu. Tinha como característica o jornalismo que utilizava uma linguagem rebuscada (Bahia, 1990, p. 158). Na década de 1920, inicia-se, porém, a preocupação com o estilo jornalístico. Após realizar uma viagem aos Estados Unidos, Gilberto Freyre passa a demonstrar essa tendência em sua atividade enquanto diretor de redação de A Província, um jornal de Recife. A Semana Modernista de 1922 também é apontada por Nilson Lage (1998) como influência importante para a reforma editorial na imprensa brasileira. Uma das idéias dos modernistas era justamente aproximar o texto literário da fala brasileira, limitando, por exemplo, o tratamento cerimonioso e eliminando palavras em desuso, como edil e alcaide. Entretanto, essas inovações só iriam se concretizar no jornalismo anos mais tarde. A reforma do estilo da imprensa brasileira começou na década de 1950, em um pequeno jornal do Rio de Janeiro, o Diário Carioca (que circulou entre 1928 e 1966), onde foram introduzidos pelos jornalistas Danton Jobim e Pompeu de Souza três importantes elementos oriundos do jornalismo norte-americano: o lead, o manual de redação e o copy desk (redator responsável por reescrever as matérias, dando um tratamento uniforme a todos os textos). 

Esse novo padrão textual não se espalhou de imediato por toda a imprensa. O que aconteceu foi a convivência entre elementos do moderno estilo jornalístico com vícios da forma de escrever dominante até então. Lage (1997, p. 6), que trabalhou no Diário Carioca e no Jornal do Brasil, observa que os jornais paulistas só aderiram ao lead na década de 1970. Eduardo Martins, no jornal O Estado de S. Paulo desde o final da década de 1950, rebate a crítica e afirma que no início da década de 1960 o Estadão já usava o lead. Martins reconhece, porém, que havia muitos literatos no jornal, tendo sido difícil orientá-los sobre padronização de texto. “Mas já tínhamos um corpo de redatores, de copy desks” [na décadade 1960].

 Referência:

CAPRINO, Mônica Pegurer; REIMÃO, Sandra (Orient.). Questão de estilo: o texto jornalístico e os manuais de redação. 2002. Dissertação (Doutorado em Comunicação) – Faculdade de Comunicação, Universidade Metodista de São Paulo. São Bernardo do Campo, p. 98-100, 2002. Disponível em: <www.revistas.univerciencia.org/index.php/cs_umesp/article/download/3664/3452>. Acesso em: 22 maio 2011.

 

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