Revista Para Todos: a menina dos olhos de J. Carlos

Criada em 1918 e até 1926 considerada uma revista, exclusivamente de cinema, a revista Para Todos… sempre trazia em sua capa fotos coloridas de atores ou atrizes que estavam em cartaz.
Voltada para fotografia, não tinha muito espaço para o desenho. Mas com a criação da Cinearte, em 1926, Para Todos… reestruturou suas pautas e entrou em uma nova fase.
Assuntos leves, voltados ao público feminino jovem, foram o seu novo foco. Seções dedicadas a várias expressões artísticas e culturais permitiram maior liberdade gráfica e assim se consolidou o principal palco de J. Carlos.
Em Março daquele ano, J. Carlos passou a fazer regularmente as capas da revista. Trazendo a figura feminina soberana e absoluta, elas se tornaram um verdadeiro tesouro para art deco.
As mulheres eram representadas por desenhos sensuais e provocantes junto com pequenos seres fantásticos como faunos, pierrôs, pajens negros ou mesmo políticos desenhados como gnomos. Para servi-las a figura masculina, assume ainda formas alegóricas de gárgulas, budas, momos ou diabos gigantes.
A revista tinha quatro capas, feitas em três a quatro cores. Com a mistura, pela sobreposição de retículas, há intuito de alterar o tom ou obter novas cores, em alguns casos é difícil acreditar que existam as mesmas cores nas quatro capas.
As capas da Para Todos… não eram vinculadas com acontecimentos específicos, e são marcadas pela ousadia.

Porém as capas se relacionam com estações do ano e datas comemorativas como Natal e Carnaval.
No Carnaval de 1927, J. Carlos soltou sua imaginação, e com as quatro capas que a revista possui, criou uma história.
Na primeira capa Colombina se deixa seduzir por Arlequim, em uma noite de lua cheia, enquanto Pierrô, desolado, assiste tudo.

– Na primeira capa Colombina se deixa seduzir por Arlequim, em uma noite de lua cheia, enquanto Pierrô, desolado, assiste tudo.

-Na segunda, o dia está raiando e Pierrô olha perplexo, para Arlequim morto a sua frente. Percebe-se que sua mão está aberta e há um revolver caído ao chão.

– Na terceira capa é representada a terça-feira gorda, o sol esta presente e Colombina, está alegremente nos ombros de Pierrô.

– Quarta- feira de cinzas, quarta capa, nela um diabo gigante varre, entre serpentina e confetes, Pierrô e Arlequim. Ao lado, uma mulher assiste a cena com ar de desdém.

O formato da revista, como n’O Malho, é de 23 X 32 cm, e a encadernação é tipo canoa. Seu miolo possui 60 páginas, com as oito primeiras em papel jornal, que trazem texto e desenho a traço, e as demais em papel couché, com matérias ilustradas, fotorreportagens, anúncios mais caros e desenhos de página inteira.
O público-alvo eram mulheres de classe media a alta. Esse fator permitiu mais ousadia gráfica.
As manchas tipográficas revelam a intenção de tornar a leitura mais agradável. J. Carlos criava colunas de texto, com larguras diferentes para clarear as páginas. Esse recurso era pouco utilizado.
O editorial em duas páginas apresentava cores como roxo, vermelho, azul esverdeado associada ao preto, para dar mais impacto ao branco das folhas.
A segunda página do editorial apresentava uma diagramação mais livre, e passou por experimentações entre fotografias, texto ou poemas ilustrados.
Os logotipos que nomeiam as seções internas eram feitos por letras livres e sinuosas, sutilmente caligrafadas com pequenos desenhos.

J. Carlos colocava figuras femininas passeando pelas páginas, sem vinculo com o texto. Também desenhava moças dialogando com as fotografias, indicando-nos com que espírito se deve olhá-las.
Criando uma disputa entre moças desenhadas e as fotografias, o desenho ironizava, dependendo da situação, a fotografia, o fotografo ou o momento retratado.

 

 Em 1928, a revista trouxe uma fotografia da atriz Vera Sergine. E no segundo editorial da revista J. Carlos aproveitou a foto para fazer uma caricatura, que vemos a seguir.

Quando as fotografias passaram a fazer parte da revista, J. Carlos não sabia como trabalhar com elas, então colocava fios em volta delas, figuras geométricas, como molduras.
Na mesma edição eram testados uma série de possibilidades, círculos cheios e vazados, estrelas, losangos, quadrados em preto e branco e  fios longitudinais.
Com o passar do tempo ele limpa as molduras, e passa a usar o recorte e a diagramação.

Na hora de escolher as cores, para as fotografias, ele optava por uma que fosse mais aproximada ao tom da pela, sugerindo maior verossimilhança, esse realismo é negado pela artificialidade do enquadramento. Porém esse enquadramento sugere a moldura de um espelho, cuja imagem refletida chama para o real.

Cansado de figuras geométricas e espelhos, J. Carlos parte para recortes livres, com formas irregulares e pontiagudas, com caráter experimental de total vanguarda.

Outro aspecto que chama atenção é a leveza da diagramação, que faz com as fotografias passeiem pelo texto, criando páginas animadas.

J. Carlos foi peça fundamental na incorporação de um novo discurso visual, que reflete claramente índices de modernidade no design gráfico.
Conjugando uma linguagem gráfica moderna e ao mesmo tempo brasileira. Realizou trabalhos, que hoje, representa retratos de sua época.

Referências Bibliográficas:

CARDOSO, Rafael. O design Gráfico Brasileiro antes do design, Editora Cosacnaify, 2005

CARDOSO, Rafael. Impresso no Brasil 1808-1930 – Destaques da história gráfica no acervo da biblioteca nacional, Editora Verso Brasil.

 

 

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