O Pasquim

‘O Pasquim’ nasceu no Rio de Janeiro e foi o tablóide de maior destaque durante a repressão militar. Teve grande aceitação, e vendia no auge cerca de 250 mil exemplares. Durou de1969 a 1988 (auge de 1969 e 1973). Entre seus fundadores está Millôr Fernandes, Jaguar, Paulo de Francis e Tarso de Castro. O jornal noticiava as questões mais sérias com relação ao Brasil e ao mundo de modo bem-humorado e irreverente.

Com o estilo original de propor soluções, lutar por um país justo e rir da própria desgraça em forma de protesto; o jornal ainda colocava em discussão temas como divórcio, sexo, feminismo, bossa nova e cinema. Assuntos que ultrajavam os costumes da sociedade da época, rígida, já que encontravam-se em pleno auge do regime militar brasileiro. Nesse tom desafiador, Ivan Lessa, um dos colaboradores do jornal, bolou uma frase que marcou época no semanário: “Os políticos são os únicos seres humanos capazes de passar direitos ao processo de repensar sem fazer escala no de pensar”; referindo-se ao autoritarismo militar.¹

O jornal partiu de uma tiragem de 20 mil exemplares no momento de sua criação. Quantidade que parecia, inclusive, excessiva para alguns dos idealizadores. Porém o semanário no tempo de auge chegou a ter uma tiragem de 250 mil exemplares, como já dito. Número este, que comprova o sucesso d’O Pasquim’ durante a parte mais dura de repressão, o início da década de 1970.

Já na primeira edição, lançada em 26 de Junho, foi feita uma entrevista com o colunista social Ibrahim Sued – matéria da capa – além de conter textos da atriz Odete Lara, direto do festival de Cannes; e do compositor Chico Buarque (Ver imagem). O jornal daquele dia também continha a seguinte frase em destaque: “É um semanário executado só por jornalistas que se consideram geniais”.¹ Era explicitamente um jornal que batia, em sua ideologia, de frente com a rigidez militar. Mais ainda, confrontava os padrões tradicionais da imprensa oficial, outro motivo pelo qual marcou época.

O primeiro “O Pasquim”

Fonte: https://caminhosdojornalismo.files.wordpress.com/2011/05/pasquim01.jpg?w=230 (Acesso em 19 de Maio)

O jornal ainda possuía um mascote. Um rato chamado ‘Sig’, em referência a Sigmund Freud, o fundador da psicanálise. Ainda dentro da irreverência do semanário, a invenção de palavras/expressões como “Putz Grila”, “Duca” e “Sifu”. Linguagem logo incorporada pela classe publicitária e pela oralidade, algo que perdura até os dias de hoje.

Sig

Fonte: https://caminhosdojornalismo.files.wordpress.com/2011/05/ratinhopasquim.jpg?w=198  (Acesso 19 de Maio)

Logicamente o regime não ficou parado com tamanhas críticas e ultrajes providos pelo jornal. Chegou a inclusive colocar uma bomba dentro da redação d’O Pasquim’, depois de divulgada uma entrevista com Leila Diniz cheia de palavrões e livre de auto-censura por parte dos jornalistas. Inclusive, de tantos palavrões os próprios redatores por vezes colocavam um * no lugar, logicamente, sem prejuízo na leitura. A bomba acabou não explodindo por defeito.²

O governo também chegou a realizar cortes grandes nas edições do jornal, que, mesmo passando por isso, ainda era recolhido nas bancas cariocas por militares insatisfeitos com sua circulação. O fato era que o jornal fora idealizado por gente muito esperta, que conseguia burlar a censura implacável até de dentro da redação.

Veio uma senhora chamada dona Maria, que nós descobrimos que tinha um ponto fraco: gostava de beber. Todo dia a gente botava uma garrafa de scotch na mesa dela e depois da terceira dose ela aprovava tudo. (KUCINSKI, 1991, p.162)

Em 1º de novembro de 1970, depois de publicarem uma charge de Ziraldo mal vista pelo governo, o DOI-CODI invadiu o jornal, prendendo, além do caricaturista, todos que se encontravam na redação do jornal; com exceção do diretor, Tarso de Castro, que escapara pelo muro dos fundos se escondendo numa casa vizinha. A charge era uma caricatura de D. Pedro às margens do Ipiranga proferindo os dizeres ”Eu quero mocotó!!”, ao invés do conhecido “Independência ou morte”. ²

Charge de Ziraldo

Fonte: https://caminhosdojornalismo.files.wordpress.com/2011/05/mocot25c325b32bpasquim.jpg?w=300 (Acesso em 22 de Maio)

Com essas prisões os militares imaginaram que “O Pasquim” sairia de circulação rapidamente. De fato, o jornal levou um baque profundo. Alguns dos autores demonstravam interesse em deixar o Brasil, as tiragens caíram drasticamente devido à censura militar implacável e alguns jornaleiros se recusavam a vender “O Pasquim” com medo da repressão.

Porém o jornal continuou sendo escrito por Millôr Fernandes, Miguel Paiva, Henfil e outros pensadores que escaparam dos militares. E em desafio à autoridade, os criativos escritores inventaram um “redator fantasma” chamado Pedro Ferreti, que escrevia no estilo da “patota” que estava presa. Tentando pegá-lo, os censores cortaram os telefones da redação. Após a descoberta da “brincadeira” a polícia exigia que Tarso de Castro se entregasse. Tarso devido às pressões, inclusive internas dos colegas, acabou por entregar-se ao DOPS e a redação do jornal mudou-se para Copacabana. Tempo difícil para o semanário. Para a publicação, o jornal tinha que obrigatoriamente ser enviado à Brasília para a censura militar, só depois disso voltava e podia ser publicado.

No dia 31 de dezembro de1970 aprisão dos escritores fora revogada e eles voltaram ao jornal como heróis. Mesmo assim, a tiragem de 180 mil jornais foi reduzida nesse tempo para apenas 60 mil, o que diminuiu muito os anúncios publicitários. Muito da crise se dava ao fato de nenhum dos gestores do semanário ter sido apto ao ponto de gerir bem o sucesso que tiveram nos anos anteriores.

No primeiro ano, “O Pasquim” teve um lucro de Cr$ 700 mil e nunca tinha dinheiro. O contador José Grossi tinha um talão de 50 cheques pré-assinados pelo Jaguar e pelo Tarso. Grossi tinha um Alfa Romeo italiano que custava US$ 50 mil. (…) Quem dirigia o jornal no começo era o Sérgio Cabral e o Tarso. Sérgio Cabral deixava os talões assinados e o Tarso gastava tudo. Suítes em hotéis, carro Puma. (KUCINSKI, 1991, p. 168)

Os desgastes entre Tarso de Castro e os humoristas eram constantes. Tarso, em assembléia, decidiu afastar-se do comando, porém deixou sua mulher na direção. Um dia depois disso, ela fora deposta pelos humoristas, que reclamavam da má utilização dos recursos obtidos com vendas e publicidades. Sérgio Cabral assumiu a direção no começo de 1971 até junho. Em setembro de 1972, Millôr Fernandes assume a direção.

O jornal sofria com o fato de não ser mais o único alternativo. Perdera espaço, e isso ainda somado ao milagre econômico que tirou da classe média, principais consumidores do jornal, muito do poder de compra. Além do mais a editora Abril, editora a qual publicava a maioria dos jornais alternativos, cobrava preços salgados dos jornalistas e os obrigava a pagar à vista.

Em1975 acensura prévia foi tirada d’O Pasquim’. Millôr Fernandes fez o editorial da edição 300 que sairia naquela semana. Os militares não viram bem o que ele escrevera, Fernandes acabou sendo fichado no DOPS e depois abandonou a direção do semanário. Nascia ali um outro jornal, muito mais opinativo e promotor de campanhas políticas.

A vendagem continuava a cair e, enquanto isso, os jornalistas eram pegos mais vezes brigando entre si. No fim dos anos 70 e começo dos 80 “O Pasquim” entrava em profunda decadência. Acabaram caindo no clichê do “bom contra o mal” numa época em que já não havia mais tanta repressão nestes termos.

Em 1988 o empresário João Carlos Rabelo comprou de Jaguar “O Pasquim”, que, à época, vendia apenas três mil exemplares em edições quinzenais, não mais semanais; chegava ficar, inclusive, um mês sem sair de vezem quando. Asdividas eram grandes, e os problemas judiciais também.  Já não era um jornal que continha a voz de jovens reprimidos, o que colaborou para a queda e morte do semanário no fim dos anos 80. “O Pasquim” não era mais o que o consolidara, a voz da juventude.

REFERÊNCIAS

¹(http://www2.camara.gov.br/tv/materias/O-PASQUIM—A-SUBVERSAO-DO-HUMOR/164411-O-PASQUIM—A-SUBVERSAO-DO-HUMOR.html) Acesso em 4 de Maio

²KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários. São Paulo: Scritta, 1991. (p. 151-174)

(http://www.webartigos.com/articles/2551/1/Imprensa-Alternativa/pagina1.html) Acesso em 7 de Maio

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