Da pauta ao feedback

            “O Caminho percorrido pela notícia, desde o surgimento da ideia na reunião de pauta até sua ‘publicação’ na internet, demora, muitas vezes, dez minutos.”

É com esta frase que Pollyana Ferrari, primeira editora do site da revista Época – o primeiro veículo impresso a integrar o mundo web; escreveu em sua obra Jornalismo Digital (2010), que inicia-se análise da rotina da produção digital da informação. O grande diferencial do jornalismo digital para com as outras mídias é o tempo.

Em um jornalismo que cada vez mais realiza os ‘furos’ de reportagem, as notícias são os principais gêneros jornalísticos. Por isso, é comum que a mensagem seja transmitida apenas com o lide e sublide, sem grandes detalhes, que são passados com o decorrer da situação e conectados ao contexto por meio de hyperlinks.

De acordo com Pollyana, “a reportagem ficou apenas restrita a coberturas especiais”, nas quais o fato é contextualizado na própria matéria e sempre sendo apoiada pelos recursos hipermidiáticos, o que ajuda o leitor a construir uma linha de raciocínio mais clara.

A partir de 2002, a seleção das notícias ocorrem através dos conteúdos distribuídos pelas agências de notícias, o que levou a autora à analogia aos inexistentes carros de reportagem nas redações on-line, referindo-se ao repórter não sair mais em busca da notícia. Apenas entrar no site da agência, escolher as notícias que julga de maior importância e “sobe” para o portal. “Subir” uma matéria, no jargão da internet, significa publicá-la.

Para Bob Fernandes, antigo editor-chefe da revista Carta Capital e atual na eletrônica Terra Magazine, acredita que a notícia deveria ser mais apurada e comentou à revista Imprensa na edição de outubro de 2010 sobre o assunto:

“É uma revista que se faz em tempo real, mas não tem a obrigação. A combinação com o ‘Terra’ é exatamente essa: não ter a obrigação, mas, sim um tempo para respirar, parar, refletir. Pode-se fazer em tempo real, na velocidade curta, rápida, mas também, e tem tempo para isso, a coisa mais pensada, buscar o bastidor, a informação exclusiva”.

No entanto, a reunião de pauta das reportagens já é mais extensa, parecida com as demais mídias. Nela são definidos “a agenda de evento a serem cobertos para noticiário, indicação de assunto, abordagem, fontes possíveis, equipamentos, deslocamentos e prazo de produção de reportagens”, como descreve Pollyana.

Outros artifícios para as definições de pauta são as redes sociais. Para Ricardo Fotios, gerente geral de conteúdo do portal Uol, “O que se diz nas redes é o que se está falando nos bares, nas baladas, no estádio, nas ruas. Não há dois mundos. Há muita riqueza de informação. Mas o trabalho do jornalista é exatamente apurar se o que ouviu dizer procede.”

A  versatilidade no processo de produção digital da informação, desde a pauta a apuração e postagem, é o fator essencial para a rapidez da informação e inovação, esta última que, como disse Ryan Spoon, diretor da Dogpatch Labs, empresa que investe em capital de risco, “é algo que nunca se viu”.

Fotios confirmou em entrevista que “a produção segue os mesmos preceitos das mídias tradicionais, ou seja, pauta, apuração, redação e edição”. No entanto, a apuração é idêntica a qualquer outra jornalística, com excessão de que “busca-se as fontes mais relevantes”, as quais são procuradas, na maioria das vezes, pelo telefone ou por e-mail. Contudo, como foi analisado por Pollyana, o tempo de duração é muito curto e isto acaba resultando em notícias “rasas” e provenientes das agências de notícias, como a Reuters.

Felizmente já existem portais que aprofundam cada vez mais suas matérias, o que faz predominante as reportagens. Sites como o Nytimes.com, Cnn.com e Aljazeera.net são grandes exemplos. No Brasil, a Globo.com também investe bastante em reportagens, mas ainda são minoria.

No jornalismo digital não tem horário de fechamento, o famoso deadline. Na visão de Fotios, isto apresenta pontos bons e ruins. “Não há hora de fechamento, não há pressão para a entrega em um horário do dia e isso é bom. Por não haver deadline, fecha-se material o dia inteiro, e isso às vezes é ruim.”

A produção jornalística on-line não para, sempre está em constante atualização. Os jornalistas têm de ser plugados o dia inteiro, a par em tempo real dos acontecimentos e preparados para ocupar as “horas vagas” cobrindo e apurando notícias de última hora e pesquisando sobre o contexto da situação para a geração de hyperlinks para enriquecer o conhecimento do leitor.

Na reportagem Um novo papel” da edição de outubro de 2010 da revista Imprensa, “um dos maiores desafios no trabalho do jornalista (digital) será organizar o fluxo de material informativo que comporá a reportagem multimídia”. A prioridade para o volume de notícias sobrecarrega o jornalista.

Depois de subir a notícia, a divulgação atualmente é feita através das redes sociais. O Twitter, o Facebook e releases aos e-mails dos usuários cadastrados são as principais e o feedback é surpreendente. Além dos blogs, que são sites particulares nos quais os jornalistas utilizam como se fosse uma coluna impressa, expessando sua opinião, a interação do público com os portais demonstra o resultado da notícia.

Já na home page do portal, podem ter o título, chapéu ou linha-fina mudados conforme o número de acessos. Além do mais, outra vantagem é disponibilidade da correção, ou seja, após postado o texto pode ser revisto.

A abertura para o público comentar sobre o texto pode trazer críticas construtivas à equipe de jornalismo e consiste em uma forma de atração do leitor, que além de ter recursos de som, imagem e texto, pode transmitir sua opinião mais abertamente, em maior número, ao contrário do impresso, onde são selecionadas as opiniões.

Ao analisar as técnicas de produção na web, conclui-se que é indiscutível a personalização, a praticidade e a interatividade que dispõe ao leitor, que escolhe assuntos de seu interesse. No entanto, a maioria destes buscam informações rápidas. Com isso, em grande parte das vezes, não adquire conhecimento, apenas informações básicas.

Para o jornalista, tanto ao repórter quanto ao editor a carga que carrega é muito grande. A ambição dos portais por ser o que “mais informa” e o que “mais dá furos” resulta em mensagens mal apuradas, superficiais, que não dispertam a reflexão do leitor, ao invés de priorizar o maior número de grandes coberturas.

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