Entrevista – João Bonturi, jornalista e historiador

Como você encara esse sensacionalismo que se vê em diversos programas hoje? O Globo Esporte, por exemplo, antes era um programa com um foco mais jornalístico e hoje temos todo o entretenimento que o Tiago Leifert proporciona, dizendo até que o programa é improvisado.

João: O programa Metrópole (da TV Cultura) é improvisado, mas mesmo assim é um ótimo programa. Aborda temas que valem a pensa ser assistidos. Neste caso eu prefiro a ESPN. Lá tem jornalistas bons que sabem do que falam. O Tiago tem aquelas brigas com o Neto, chega até ser uma baixaria, fofoca. Até que ponto chega a ética jornalística ai? E parece que quanto mais baixa a camada social, mais parece que elas se interessam por esse tipo de baixaria. Isso é jornalismo ou fofoca? Quando você fala do Tiago, cai no plano dos famosos, mistura jornalismo com celebridades. Qual o interesse que tem nisso? Eu não aguento assistir.

Programas como CQC usam a pauta jornalística para falar de assuntos sérios, mas eles também fazem brincadeiras com outros programas da TV. Um programa de verdade não faria as edições que eles fazem como dar tapa na cara dos políticos e tudo o mais. Como você vê esse lado da televisão?

João: No caso do CQC, até que ponto a conduta deles é para denunciar ou para moralizar? A mídia em geral desmoraliza o poder Legislativo e isso tanto o CQC quanto um programa mais sério. Agora desvalorizar os três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) não é anarquista? Eles não assumem. O que eles querem? Denunciar para quem? O objetivo final é moralizador? Esse discurso é velho. Candidatos fazem esse discurso de acabar com a corrupção, mas nunca fazem nada. Eles precisavam de uma proposta. Agora a crítica a outros programas é uma boa, por exemplo, quando eles falavam da Maysa. É divertido. O Observatório da Imprensa é um programa de crítica a mídia e é mais sério. Mas não deixa de fazer.

 

Quando teve a queda das torres gêmeas, os programas mais sérios cobriram e os mais sensacionalistas como Márcia, Luciana Gimenez, enfim, também cobriram pelo tamanho do fato. Mas quando teve o caso Isabella, todo mundo cobriu visando o sensacionalismo. O que você acha disso?

João: Para você ter uma ideia, quando aconteceu o 11 de setembro, era um terça-feira e eu estava em casa. Eu liguei o computador, sabe naquela época que demorava… Foi bem na época que a tinha o Projeto Folha. O site estava passando por mudanças. Quando eu vi na capa da folha o display com a notícia, eu não acreditei. Pensei que fosse hacker porque o site da UOL tinha sido hackeado fazia pouco tempo. Quando eu fui ligar a TV, minha editora ligou pedindo pra escrever sobre Paquistão, Irã, Iraque. Eu trabalhei sem parar até a outra segunda feira porque não tinha material sobre esses países. Mesmo trabalhando de casa, foi muita pesquisa. Eu só fui achar um material sobre isso na Livraria Cultura e estava em francês. Esse tipo de cobertura é bom para o jornalismo. Traz bastante pesquisa e conhecimento. Já o caso Isabella lida com o lado perverso (pra usar essa palavra ele fez uma pequena contextualização com o filme do Vlado, que o Nicolas Cage interpretou). Há um direcionamento para a perversidade porque no fundo o público em geral abomina, mas tem curiosidade de coisas desse tipo. Eu comparo com um acidente de automóvel. Fica aquele trânsito, as pessoas sabem que vão ver coisas fortes e mesmo assim dirigem devagar. Por que para pra ver? É tipo um espetáculo de UFC. Aquilo é uma arena romana. Não se luta até a morte, mas quando eu assisti, o lutador estava com o rosto deformado, um galo enorme e queria continuar lutando! As pessoas querem ver essa violência, essa perversidade, mas quando escuta palavrão, fica criticando. É um falso pudor. Pode aí até trazer pro caso Bin Laden, não divulgaram fotos por considerarem forte demais, mas se vê UFC, o que é a foto do Bin Laden? Também chega no caso de o que é o politicamente correto? Por exemplo, a entrevista que fizeram com os Nardoni foi uma exploração. Acontece um rompimento de valores. É tanto uma questão ideológica quanto de interesse da mídia. E a mídia ganha muito nas minorias também. Quando elas se mobilizam pra protestar e se organizam nas redes sociais, isso dá audiência, fora que o suporte que elas recebem.

E pra finalizar, tem alguma cobertura da TV que te marcou muito?

João: A cobertura do Strauss-Kahn, que ainda estou trabalhando nela. (Presidente do FMI que foi acusado de assédio sexual). Por coincidência, eu estava na internet quando recebi o e-mail do New York Times, era 11:20. O Le Monde, que é de esquerda liberal e tem ligação com partido socialista, só foi falar disso 2:30 da manhã. O Le Fígaro anunciou logo depois do New York Times. Óbvio que o Le Monde esperou por mais dados pois teria dado apoio ao Strauss. Muitas coisas do passado dele foram ignoradas quando o NYT e o LF fizeram a cobertura. Quer dizer, ele já cometeu outros deslizes no passado, isso não é de hoje. Além do interesse ideológico, tem o interesse sensacionalista. Poderia ter uma cobertura tipo tablóide inglês como uma ideologicamente mais séria. Agora uma cobertura que eu não esqueço é do 11 de setembro. Eu estava fazendo minha pós-graduação e ia ter aula com José Arbex no sábado. O tema da aula foi a cobertura que a mídia deu sobre o assunto. Foi levantada a questão da diversidade e como as pessoas viram o fato, a repetição de cenas e as suposições em como teria sido bolado o atentado. A questão religiosa é também uma diferenciação da tônica esquerdista que havia no terrorismo dos anos 60 e 70. Pra citar o que aconteceu em Munique, o sequestro da delegação de Israel, não tinha fundo religioso e sim revolucionário de esquerda. No atentado às torres gêmeas fica evidente o radicalismo religioso. Podemos ai fechar um relacionamento entre reformas atuais no mundo árabe e sua relação com a religião islâmica. Mas isso tudo é bem distante.

Grupo 4 – Matutino

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